Corporate Habitação

Entrevista com Bruno Lessa, investidor imobiliário, palestrante e autor de quatro livros sobre mercado imobiliário

A pandemia da Covid-19 mexeu com o cotidiano das pessoas e das empresas, e com a construção civil, isso não foi diferente. Em entrevista exclusiva para o Corporate Habitação, o investidor imobiliário, palestrante e autor de quatro livros sobre mercado imobiliário publicados em dois idiomas, Bruno Lessa, analisa as mudanças e o impacto que a crise trouxe ao setor, além de dar dicas de como as construtoras podem se proteger neste momento de incertezas e a importância da contratação de seguros. Confira a entrevista!

1) A pandemia da Covid-19 elevou o preço dos insumos da construção civil. De acordo com o INCC, temos um acumulado de 15,26% nos últimos 12 meses. Como as construtoras podem se proteger neste momento? O crédito imobiliário é uma opção interessante?

Estamos vivendo uma situação inédita que pegou muita gente de surpresa, tanto construtoras quanto compradores de imóveis. Situações inéditas exigem soluções inovadoras, coragem para enfrentá-las e, claro, muita resiliência. Pensando nas construtoras, acredito que o mais importante neste momento é ter uma boa gestão de custos, poder de negociação com fornecedores e total controle sobre as finanças da obra e fluxo de caixa. O construtor precisa lembrar que a compra de um imóvel é algo que envolve confiança e deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para honrar o seu compromisso com o comprador, tanto em prazos quanto em qualidade, e tomar as medidas necessárias para que a obra seja entregue. Em um momento onde as taxas de juros do crédito ainda são consideradas baixas e os materiais de construção estão subindo em uma grande velocidade, tomar crédito para garantir a compra antecipada de determinados insumos (sobretudo os que podem ser estocados sem risco de perda) pode ser uma boa estratégia para mitigar o risco de novos aumentos, mantendo assim uma gestão de custos mais previsível – claro, desde que o crédito seja tomado com muita responsabilidade.

2) Quais são as grandes dificuldades enfrentadas pelas construtoras na hora de conseguir empréstimo?

Na minha visão varia muito de empresa para empresa, mas no geral acredito que a maior dificuldade é a falta de “educação para o uso crédito”: a maior parte não sabe exatamente o momento mais adequado de obter crédito e não se prepara este momento. Percebo basicamente dois grupos de empresas quando o assunto é empréstimo: 

– Os que acreditam que “não precisam” só pelo fato de estarem capitalizados, o que não é uma verdade absoluta, afinal, poderiam utilizar o valor em caixa para investimentos mais relevantes no próprio core business da empresa. Geralmente este grupo tem um score muito bom e conseguiria taxas muito atrativas, mas nem sempre utilizam.

– Os que obtêm o crédito apenas em caso de necessidade, geralmente quando já possuem uma pressão grande sobre o fluxo de caixa, o que acaba deixando a empresa em uma posição ainda mais vulnerável. Geralmente este grupo nem sempre consegue boas opções por não ter previsto o uso do crédito e, na necessidade imediata do capital, acabam não usufruindo das melhores taxas.

Independente do perfil, toda empresa deveria ter uma boa gestão financeira e ter toda sua documentação e estrutura preparada de modo a facilitar a obtenção do crédito no momento que for conveniente pegar um empréstimo.

3) Muito se fala nas mudanças que a pandemia vem trazendo para os ambientes profissionais e pessoais. Como o setor da construção civil está lidando com a situação? Que mudanças a pandemia trouxe para o setor e que devem se manter no pós-pandemia?

A pandemia mexeu radicalmente com a maneira como as pessoas se relacionam com o imóvel, afinal, o isolamento social fez com que todos nós ficássemos muito tempo em casa e repensando o que de fato precisamos em uma casa ou escritório. Isso tem feito com que incorporadoras e construtoras reavaliem todos os seus projetos no que diz respeito a planta, áreas comuns, dentre outros aspectos. Até mesmo em outros setores, como o de intermediação de vendas, a mudança foi presente, fazendo com que muitas empresas acelerassem o processo de digitalização de processos para continuar atendendo bem os clientes mesmo de forma remota. Em resumo, todas as mudanças têm sido muito positivas.

4) O que você espera do setor da construção civil nos próximos meses? Teremos uma retomada ou é um período para pisar no freio?

O Brasil possui um dos maiores déficits habitacionais do mundo e isso por si só já garante um mercado próspero por muitos anos. Somado a isso, temos a pandemia que fez com que muitas pessoas chegassem à conclusão que precisam de um novo imóvel. Estes fatores somados trazem uma demanda imobiliária crescente. Agora acrescente a esta fórmula um cenário de juros ainda considerados baixos pelos padrões do Brasil, permitindo com que mais pessoas tenham acesso à aquisição do tão sonhado imóvel através de um financiamento e você terá um cenário extremamente promissor para a construção civil.

5) Sabemos que alguns seguros são obrigatórios quando se vai construir um empreendimento, da mesma forma que temos alguns que são opcionais, mas que são importantes para deixar os empresários mais seguros nas decisões diárias. Na sua opinião, qual a importância de se fazer essa combinação de produtos no setor da construção civil e por quê?

Costumo dizer que seguro é como o cinto de segurança de um veículo. Tem uma função e a gente aprendeu que é importante usar, sem questionar, pois sabe que se algo acontecer o dano será muito menor. Já faz parte da nossa rotina de proteção, a gente já põe o cinto no automático. Infelizmente nem todas as empresas ainda têm esta mentalidade e acabam economizando um valor muito baixo em algo que pode trazer muita tranquilidade no futuro. Eu diria que o maior risco de não ter um seguro nem é o prejuízo financeiro que isso pode acarretar no futuro, mas sim o fato de que se algo acontecer você terá que direcionar toda a sua energia para a solução do caso e isso, por si só, fará você desfocar do seu negócio principal e perder eficiência. Em resumo, acho extremamente importante e o custo-benefício justifica a contratação de todos os seguros possíveis para garantir a tranquilidade da operação.